Sons que os filhos escutam

Publicado domingo, 28 de junho de 2009, categorizado em: Textos.
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Matéria publicada em 26/7/2009 na Revista Metropole

Filtro: crianças que ouvem perfeitamente podem sofrer de transtornos no processamento auditivo, ou seja, no que o cérebro faz com os sons

Aquele “filtro” que os filhos parecem usar para selecionar apenas o que lhes interessa entre tudo o que é dito pelos pais pode não ser capricho ou deliberada falta de atenção. Crianças que escutam perfeitamente podem sofrer de transtornos no processamento auditivo, ou seja, no que o cérebro faz com os sons que chegam pelos ouvidos. Não raro, isso interfere na chamada consciência fonológica – capacidade cognitiva de que a língua falada pode ser segmentada em unidades distintas, palavras, sílabas e fonemas –, atrasando a aquisição da leitura e da escrita.

A abordagem combinada desses temas é o mote do livro Habilidades Auditivas e Consciência Fonoaudiológica: da Teoria à Prática, organizado pelas fonoaudiólogas Keila Alessandra Baraldi Knobel e Lilian Cristine Ribeiro Nascimento, de Campinas, e publicado pela Editora de Atualização Científica Pró-Fono. Na obra, as profissionais também oferecem ferramentas práticas para terapia, na forma de 22 cartelas e um CD com 41 faixas para a realização de 101 exercícios.

O material traz frases, histórias, palavras, sons verbais e não-verbais para estimular respostas e desenvolver habilidades principalmente de crianças, mas pode ser usado igualmente por jovens e adultos. A ideia é que o livro funcione ainda como fonte de consulta para pais, professores e outros profissionais da área da saúde. Keila é mestra e doutora em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP) e Lilian Cristine é mestre e doutora pela Faculdade de Educação (FE) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Leia a entrevista que Keila concedeu a Metrópole.

Metrópole – A que público se destina o livro?

Keila Knobel – Especialmente a fonoaudiólogos, professores e psicopedagogos. É um material para ser usado em terapia ou em casa, pelo paciente, como apoio.

Metrópole – Quer dizer, não substitui a terapia em consultório…

K K – Não. É importante ter a orientação do profissional, pois é ele quem vai determinar os exercícios e as faixas do CD a serem trabalhadas.

Metrópole – Explique o processamento auditivo.

K K – Para escutarmos, a audição periférica tem que funcionar bem. Mas não basta. Do nervo auditivo em diante, até a parte do cérebro que processa os sons, há um longo caminho, que possibilita o entendimento daquilo que se escutou. São habilidades como localizar de onde vem o som, conseguir prestar atenção a uma conversa e ignorar sons de fundo e entender uma palavra mesmo que um pedacinho dela seja encoberto por uma música. Tudo isso depende do processamento auditivo central.

Metrópole – E a consciência fonológica…

K K – É a habilidade de perceber que a linguagem oral pode ser segmentada em palavras, as palavras em sílabas, as sílabas em fonemas, e que essas unidades podem se repetir. Tratamos de ambos os temas porque, apesar de parecer, não são coisas separadas. Para desenvolver a consciência fonológica, o ser humano se baseia no que escuta.

Metrópole – O livro surgiu da percepção de que as duas coisas andam juntas?

K K – Sim. O doutorado da Lílian foi sobre consciência fonológica, e eu venho atuando com processamento auditivo há muitos anos. Sentíamos uma grande carência de materiais para trabalhar com essas crianças e para que elas pudessem treinar em casa. Então acabávamos criando e inventando muitas coisas para os nossos próprios pacientes, o que é muito trabalhoso.

Metrópole – A avaliação dessas habilidades é sempre feita pelo fonoaudiólogo? Não é preciso um neurologista?

K K – O neurologista vai analisar, por exemplo, a capacidade de atenção daquela criança que está sempre distraída, no mundo da lua. O fono avalia a via auditiva. Leva-se em consideração as duas coisas para fechar o diagnóstico.

Metrópole – Que sinais devem levar pais ou professores a suspeitar de que a criança pode ter problemas nessas áreas?

K K – Quando ela parece ter dificuldade de entender o que está sendo falado, fica dizendo “hã?”, “quê?”, principalmente em ambientes ruidosos; se tem vocabulário pobre, não entende piadas e ironias, nem consegue acompanhar músicas e ritmos. Aquela que parece que não escuta. Ela pode ter deficiência auditiva, o que já justifica tudo. Mas se o teste for normal, aí partimos para avaliação do processamento auditivo. Já os problemas de consciência fonológica são manifestados por crianças com dificuldade para serem alfabetizadas.

Metrópole – Trocar letras também pode ser um indício?

K K – Sim, trocar letras na fala ou na escrita. Pode ser tanto alteração no processamento auditivo quanto na consciência fonológica.

Metrópole – A partir de que idade da criança os pais devem ficar atentos?

K K – Desde que ela nasce.

Metrópole – Hoje há o teste da orelhinha, obrigatório por lei…

K K – Sim, ele detecta se a criança é ouvinte. Mas no decorrer do seu desenvolvimento, ela pode ter, por exemplo, repetidas infecções de ouvido, inclusive de um tipo que não provoca dor nem febre, mas causa perda auditiva de leve a moderada. E isso pode trazer alterações de linguagem e de aprendizagem.

Metrópole – E a criança que demora a falar com clareza? Pode ser outro sinal?

K K – Sim. Uma criança de dois anos deve falar frases simples, como “quero tomar sorvete”, e ter um vocabulário mínimo e compreensível. É normal que uma de três anos ainda troque várias letras. Uma de 4, menos, e uma de 5 é para estar falando praticamente todos os sons. O último a ser adquirido é o som do “erre”, como em barata ou prato. Na dúvida, é melhor pecar por excesso do que por falta: conversar com o pediatra, com um otorrino e com um fonoaudiólogo, quando for preciso.

Metrópole – Como são detectadas essas alterações?

K K – É feita uma audiometria para garantir que a audição periférica está normal e, a partir daí, aplicam-se vários testes para avaliar habilidades auditivas. Em um deles, a criança precisa dizer palavras, em silêncio. Depois ela tem que repeti-las em meio a ruídos, e o seu desempenho é comparado.

Metrópole – A partir de quantos anos pode ser feito um teste como esses?

K K – Dá para fazer uma triagem aos quatro anos. Mas avaliação com dados de diagnóstico só a partir dos seis.

Metrópole – Nessa triagem, se houver a suspeita, é possível estimulá-la para evitar que o problema se agrave?

K K – Já dá para intervir, orientando os pais ou fazendo uma terapia para estimular sua via auditiva.

Metrópole – O que pode causar um transtorno de processamento auditivo?

K K – O mais comum é acometer crianças que sofreram otites de repetição. Mesmo que a criança tenha nascido ouvinte, sua via auditiva central vai amadurecendo e chega ao ápice aos 15 anos. E isso só ocorre quando ela é exposta aos sons. Portanto, se está sempre com otite, uma hora ouve bem e outra não, pode ter um atraso nesse desenvolvimento. Isso pode acontecer também se ela está sempre em ambientes muito ruidosos ou não tem uma estimulação auditiva adequada.

Metrópole – E como ela pode ser estimulada?

K K – Os pais devem falar sempre com a criança, usando vocabulário rico, não simplificado, muito menos errado. Por exemplo, não tem que falar sempre “sapato”. Digam se é sandália, tênis, bota. Outra dica é conversar com a criança de preferência em ambientes silenciosos; colocar música, fazer ritmos juntos e ter o hábito de contar histórias todas as noites, mesmo curtinhas.

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