Rebelde sem pausa
Publicado terça-feira, 9 de novembro de 2010, categorizado em: Diversos.
Principais tags: Adolescente, Capelatto, Comportamento, Criança, Educação, Limites.
Publicada em 7/11/2010 na Revista Metropole
Educação: limites ajudam adolescente a sentir que pode suportar as frustrações do dia a dia, dizem Ivan e Iuri Capelatto em palestra
Por Adriana Giachini
amaral@rac.com.br
A mãe pede que o filho de três anos desligue a televisão porque é hora do banho e a criança reage com raiva. A filha adolescente se tranca no quarto quando o pai diz que ela tem que estudar em vez de passear no shopping com as amigas de escola. Não raras vezes, os pais interpretam a raiva dos filhos – tão comum na infância e na adolescência – como um gesto de revolta, de rebeldia, e ignoram que, na verdade, ela é uma reação orgânica do corpo humano como decorrência do medo.
O medo de perder o prazer que vem do desenho na televisão, por exemplo, ativa uma região do cérebro chamada amídala cerebral e, como consequência, a reação mais esperada é que a criança se negue a atender o pedido da mãe.
Estudos recentes da neuropsicologia revelam que esse processo, na verdade, faz parte do desenvolvimento humano desde muito cedo, uma vez que as amídalas (são duas, uma de cada lado do cérebro) são formadas ainda no útero da mãe, e apenas 45 dias após a concepção.
A função delas, através do medo, é proteger a vida. O “problema” é que, depois de ativadas, surge a raiva. Assim, o medo de perder o prazer da companhia das amigas, desperta revolta. A solução é entender como medo e raiva podem ajudar positivamente no desenvolvimento emocional na infância e na adolescência.
“O primeiro passo é entender que a raiva é filha do medo. Sempre que nossos filhos mostram raiva, estão com medo de algo”, diz o psicólogo Ivan Capelatto. Ivan e o filho Iuri, também psicólogo, participaram recentemente de uma palestra sobre o tema, na Saraiva Megastore do Shopping Iguatemi, encerrando as atividades deste ano do projeto Debates Papirus. Para um auditório lotado de pais curiosos sobre o universo enigmático dos filhos, a dupla apresentou um caminho para encontrar as respostas aos milhares de pontos de interrogação que, junto dos filhos, surgem na cabeça dos pais durante toda a vida. O segredo, dizem, é conhecer mais sobre a natureza humana.
A amídala cerebral ativa o medo que, por sua vez, provoca raiva. Os pais, quando suportam a raiva dos filhos, sem nenhum tipo de enfrentamento, estão também ensinando-os a ativar uma outra área do cérebro, chamada córtex pré-frontal, responsável pelas tomadas de decisão, pelas funções executivas e pelos comportamentos sociais. Em outras palavras, o pré-frontal é juízo crítico.
Na prática, significa dizer que, depois da raiva, vem a culpa (pelo comportamento) e a expressão do medo. Assim, os porquês que os pais tanto procuram nos filhos surgirão. Descobre-se que as crianças sentem medo o tempo todo. Medo de ficar longe dos pais.
Medo de perder o prazer das brincadeiras. De fantasmas. Adolescentes são pura ansiedade. Preocupam-se com o presente e, principalmente, com o futuro. Que profissão escolher? Como se vestir? Como agir? Têm medo de não ser aceitos como são.
Em ambas as fases da vida, a raiva estará ali para dizer: há algo errado comigo, pais! “O mais interessante é saber que o pré-frontal só atinge sua plenitude entre 21 e 25 anos. Então, e até lá, precisamos aprender a ativar a consciência após a raiva. Precisamos dos pais nos mostrando como superar. O amor incondicional deles, a capacidade de dizer que nos amam mesmo diante da raiva é o caminho”, fala Iuri.
Manter o eixo é um desafio
A enfermeira Lúcia Helena Rezende de Souza, mãe de Larissa, de 14 anos, e de Felipe, de 17 anos, esteve na palestra dos psicólogos Iuri e Ivan Capelatto e surpreendeu-se com a existência das amídalas cerebrais. Para ela, uma das tarefas mais difíceis da maternidade é justamente aprender a lidar com a raiva dos filhos. “Entendendo esse processo, fica mais fácil suportar o choro, a revolta deles em determinadas situações”, fala.
Para Lúcia, os pais precisam se capacitar sempre para a educação dos filhos e o desenvolvimento saudável deles. “Manter o eixo familiar é o desafio. Hoje, os pais competem na atenção dos filhos com a televisão, a internet, o shopping, o videogame ou a escola. Não é tarefa fácil”, reconhece Lúcia, que é mãe “à moda antiga”.
Os filhos costumam até brincar com tantos cuidados e a chamam de “Lúcia, a tragédia” sempre que a mãe está lá, antevendo algo ruim que poderá acontecer e cuidando da prole. Eles brincam ao mesmo tempo em que agradecem o limite imposto pelos pais. “Ela está sempre disposta a ajudar a gente. É a melhor mãe que eu podia ter”, diz Larissa, sem se importar com os limites impostos pelos pais. “Nem sempre eu gosto e às vezes fico nervosa, mas depois me sinto culpada e, mesmo sem pedir desculpas, mostro para eles que sei que estava errada”, reconhece.
Lúcia Helena não gosta de ser comparada com as mães dos outros quando não deixa que os filhos façam algo. A advogada Lúcia Barbosa Lins, mãe de Alexander, de 14 anos, também não. Ambas assumem um perfil na “contramão” do modelo de mãe boazinha. Elas fazem marcação cerrada porque querem o melhor para os filhos e garantem: quanto mais presentes estão, mais conseguem enxergar os benefícios da maternidade. “Ainda assim, acho que somos pouco informados sobre os mau humores dos filhos. Eu já tinha ouvido o Ivan Capelatto falar das amídalas cerebrais e achei bem interessante. Acho que todos os pais deveriam saber mais sobre isso.”
A enfermeira Lúcia Helena fala de um texto que leu, quando o primeiro nasceu, dizendo que os filhos não podem esperar. A advogada Lúcia lembra de um filme em que a maternidade era comparada a uma tatuagem no rosto. Estampar a decisão para quem quiser ver e ciente de que é para sempre. As duas, mesmo sem se conhecer, concordam que maternidade é em tempo integral.
Instinto de preservação
Uma pesquisa sobre amídala cerebral citada por Iuri Capelatto mostra que crianças não adotadas quando bebês e criadas em orfanatos apresentavam um “inchaço”, provavelmente pela recorrência do medo e da raiva. “A amídala é importante porque mantém nosso instinto de preservação. Sem o medo, por exemplo, poderíamos nos expor a um perigo desnecessário”, explica.
Em outro teste, as amídalas cerebrais de um macaco foram lesionadas cirurgicamente e, como consequência, o animal perdeu o medo de uma cobra colocada em sua jaula. Ele ainda ficou extremamente dócil. “O medo, como sabemos, nos protege”, destaca Iuri.
Resgate à soberania dos pais
Quando o assunto é a educação dos filhos, não basta saber como funciona a “máquina”, mas sim como operá-la. Assim, o bom funcionamento das amídalas cerebrais, do córtex pré-frontal e de todo sistema límbico humano está condicionado às relações afetivas, à presença dos pais na criação dos filhos. Mas, cada vez mais – e pelos mais diversos argumentos, seja falta de tempo, de vontade e mesmo conhecimento -, os pais estão distantes emocionalmente dos filhos.
“Hoje os pais perderam a noção de que são referências. Como o tempo é curto, eles querem ser amigos, querem ser bons. Mas pais não são bons porque são cuidadores. Quem cuida é chato porque cerca de cuidados e, na maioria das vezes, parece nos privar dos prazeres”, diz Ivan Capelatto.
O que o psicólogo propõe é um resgate à soberania dos pais dentro do lar. Pais não precisam se explicar com tanta frequência, não podem ser frágeis e devem ser o suporte dos filhos. É preciso também interromper o ciclo do consumo excessivo. Presentes não provam afeto.
“A sociedade de consumo se aproveita do não limite dos pais e usa crianças e adolescentes como alvos. Faz isso porque os pais, por culpa da não presença, acabam oferecendo presentes como compensação. Como consequência desse comportamento, esquece-se que a ideia do limite é o resgate da saúde mental da sociedade.”
Revisão de valores
Um fenômeno assustador e já não tão silencioso vem chocando a sociedade e soando o sinal de que valores precisam de uma revisão o quanto antes. As histórias de jovens que ultrapassam os limites são a prova disso. Um caso recente é o dos universitários que promoveram o “rodeio das gordas” durante uma competição esportiva em Araraquara. A proposta era se aproximar de uma garota gorda e literalmente montá-la, como um animal de rodeios. Quem permanecesse mais tempo, seria o vencedor. Diante da conduta sem explicações, a justificativa de um dos agressores: era só brincadeira.
Em outro exemplo, em Brasília, uma adolescente de 16 anos decidiu dopar a colega de classe, de 14, e leiloar pela internet a virgindade da amiga. Em Jaguariúna, duas adolescentes de 17 anos sumiram por quase um mês, preocupando a família. Foram encontradas no Paraná, na casa de um jovem que conheceram pela internet. Os pais do rapaz não questionaram, sequer uma vez, o aparecimento das garotas na sua residência. “Se os pais não pararem para refletir, pensar e aprender que precisam voltar para casa e começar a colocar limites, a sociedade vai viver o caos da psicopatia, que é a desordem interna e a ausência de sentimentos pelos outros. A psicopatia é o narcisismo que não coloca limite para nada. O sujeito é a lei. O desejo dele está acima de tudo. Pode-se causar danos sem sentir culpa, sem sentir medo. O psicopata faz isso porque nunca teve limites.” Por este motivo, Ivan Capelatto é taxativo: o comportamento dos filhos é de responsabilidade dos pais. “Eles precisam entender que liberdade não é indiferença. Que informação não é maturidade. Hoje em dia, os pais, por medo de serem chatos, vão dizendo sim, sim, sim, e criam pessoas sem noção do outro, do perigoso nível de perversão por si mesmo e pelo outro.”
Fonte: Correio Popular
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parabens pela materia.
agradeço a oportunide de ter conhecido um pouco mais das emoçoes dos meus filhos que sao treis :uma de 12,outra de 5 e um de 3 tambem foi maravilhoso aprender a nao sentir culpa pelo temido não.
Sou psicóloga há 21 anos e as colocações aqui foram feitas de uma forma extremamente acessível…Ivan Capelatto e Iuri, parabéns mais uma vez.