Propaganda vende más opções à saúde
Publicado quinta-feira, 20 de novembro de 2008, categorizado em: Textos.
Principais tags: Consumismo, Criança, Obsedidade, Propaganda, Saúde.
Correio Popular, 24/08/08
Estudo aponta que 72% das publicidades de alimentos são de produtos com altos teores de gorduras, açúcares e sal
Na contramão das campanhas por hábitos de vida e alimentação saudáveis, a publicidade vende más opções à saúde do brasileiro. Uma pesquisa realizada pelo Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição (Opsan) da Universidade de Brasília (UnB) revela que nada menos que 72% das propagandas de alimentos veiculam mensagens para o consumo de produtos com altos teores de gorduras, açúcares e sal, uma dieta que contribui para o aumento de doenças crônicas como obesidade, hipertensão e diabetes. “A TV tem um papel importante e duplamente prejudicial à saúde, especialmente das crianças. O tempo gasto em frente à TV reduz a prática de atividades físicas ao mesmo tempo que estimula o consumo de alimentos inadequados”, avalia a pediatra e coordenadora de Saúde da Criança e do Adolescente de Campinas, Maria Fernanda Costa Haddad.
Fernanda lembra ainda que, aliada à propaganda, a disposição nas prateleiras dos supermercados busca atrair a atenção do público infantil. “Alguns produtos são colocados na terceira prateleira, voltado às crianças menores, que vão sentadas no carrinho. Já outros ficam na prateleira de baixo, ao alcance de crianças de 4 a 6 anos”, diz. “Elas assistem às propagandas nos intervalos dos desenhos e depois encontram o produto ao alcance das mãos no supermercado. E querem comer o que viram na TV”, observa.
Para a pediatra, é urgente uma legislação mais efetiva de controle à propaganda de alimentos. “Enquanto isso não acontece, cabe aos pais limitarem o tempo que a criança passa diante da TV ou no computador”, alerta. Maria Fernanda cita que estudos realizados pela Sociedade Brasileira de Pediatria mostram que, quanto menor o tempo que a criança fica diante da TV, menor a taxa de obesidade.
Estímulo ao consumo
Nos canais de TV a cabo, voltados preferencialmente para o público infantil, a pesquisa constatou que 50% das peças publicitárias são de alimentos. “Isso mostra nitidamente o direcionamento da publicidade para esse público, no sentido de estimular o consumo e formar hábitos alimentares não saudáveis”, analisa a professora Elisabetta Recine, uma das coordenadoras do estudo. Reunindo canais abertos e fechados, 44% desse tipo de propaganda são direcionados às crianças. “Isso contribui para o aumento crescente e assustador de doenças crônicas não transmissíveis, como a obesidade, hipertensão e colesterol alto em crianças, e com prevalência cada vez mais alta”, afirma Elisabetta, destacando que é urgente regulamentar a publicidade de alimentos.
Para o endocrinologista da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Marcos Antônio Tambáscia, o que mais preocupa é o aumento de casos de crianças e adolescentes obesos. “Uma criança obesa tem mais chances de se tornar um adolescente e adulto obeso, e ter as complicações de saúde inerentes a essa condição”, avalia Tambáscia. O médico alerta que já começam a surgir casos de diabetes tipo 2 em crianças e adolescentes (doença antes restrita a pessoas acima de 40 anos), de hipertensão e gordura no sangue (colesterol e triglicérides). “Essas complicações são todas fatores de risco para as doenças cardiovasculares”, destaca. O especialista lembra que, além do apelo alimentar, o sedentarismo de muitas crianças hoje colabora para agravar esse quadro.
SAIBA MAIS – Sobre o levantamento
O levantamento do Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição da UnB, intitulado “Pesquisa de monitoração de propaganda de alimentos visando à prática da alimentação saudável”, foi feito entre 2006 e 2007, com recursos do Ministério da Saúde/CNPq.
Para a análise, das peças publicitárias, a equipe do Departamento de Nutrição gravou durante 52 semanas, 20 horas diárias da programação de quatro canais televisivos, dois abertos e dois fechados, totalizando 4.160 horas de material coletado. Também foram arquivados no período 18 títulos de revistas voltadas ao público adulto em geral, feminino, adolescente e infantil. Os resultados mostraram que 72% do total das peças publicitárias de alimentos veiculam mensagens para o consumo de alimentos com altos teores de gorduras, açúcares e sal. Esse valor é alcançado com a propaganda de apenas cinco categorias de alimentos. Na ordem, os campeões são os fast food, seguidos por guloseimas (balas, chicletes) e sorvetes, refrigerantes e sucos artificiais, salgadinhos de pacote, biscoitos (doces e recheados) e bolos.
A PESQUISA
20% da programação das TVs são ocupadas por publicidade. Desse total, 10% são sobre alimentos
72% das propagandas de alimentos vendem más opções à saúde
Cinco categorias de produtos — fast food, guloseimas e sorvetes, refrigerantes e sucos artificiais, salgadinhos de pacote, e biscoitos e bolos, são responsáveis por esses 72%
Nos canais fechados, 50% da publicidade é voltada para o público infantil
Reunindo canais abertos e fechados, 44% do total de propagandas de alimentos é direcionado às crianças
Na mídia impressa, cerca de 15% do total de peças publicitárias são de alimentos
Em revistas infantis, esse número é maior, em torno de 18%
Fonte: Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição da UnB
Apelo de promoções e brindes seduz crianças
Segundo a professora Elisabetta Recine, quando se trata da análise do conteúdo publicitário destinado à criança, é alta a ocorrência de peças com promoções de estímulo à compra, como a inclusão de bonecos e figurinhas nas embalagens. “Em torno de 20% das propagandas contêm algum tipo de promoção”, afirma.
Os irmãos Arthur Euzébio e Bárbara Ribeiro, de 8 e 4 anos, respectivamente, têm hábitos saudáveis. Mas sucumbem diante dos produtos que trazem promoções de brinquedos. O prato preferido de Arthur é yakisoba e ele é uma das poucas crianças que adoram verduras e legumes. Apesar disso, o menino não resiste a um cereal açucarado ou a um fast food, especialmente quando vêm acompanhados de brinquedos. “Eu como legumes, mas também gosto de outras coisas”, diz o menino, referindo-se aos famigerados salgadinhos, balas e refrigerantes.
Bárbara também tem uma alimentação saudável, mas a propaganda de alimentos às vezes contribui para despertar na pequena uma vontade terrível de comer doces e fast foods. Ela conta que gosta mais dos lanches que vêm com brinquedos e que tem vontade de comer produtos anunciados em propagandas de televisão. “Mas eu também gosto de sushi”, afirma a pequena. “Ela é mais suscetível à propaganda e, às vezes, pede alguma coisa que viu na televisão. Acho que a influência da propaganda é maior se a criança passa muito tempo na frente da TV”, diz a mãe da dupla, a consultora em investimentos Renata Euzébio, que controla o tempo que os filhos assistem televisão. (DM/AAN)
Educadora defende uma mudança na legislação
Para a educadora Gláucia de Melo Ferreira, diretora da Escola Curumim, em Campinas, é fundamental oferecer alternativas de alimentação saudável às crianças tanto em casa como nas escolas. Uma prática adotada na Curumim é o lanche coletivo, onde é proibido refrigerantes e industrializados. “O lanche coletivo é uma oportunidade de discutir a qualidade do alimento, os que são recomendados para a hora do lanche, que são diferentes dos servidos no almoço”, diz Gláucia.
Ela conta que as crianças aprendem, por exemplo, que às 10h não é necessário uma refeição pesada, com gorduras. Basta uma fruta, um pouco de carboidrato e um suco. “Praticando isso, oferecemos ‘anticorpos’ às crianças, já que elas são muito suscetíveis, indefesas diante da propaganda”, avalia. “Só praticando uma alimentação saudável é possível se opor a essa avalanche.”
Para Gláucia, a legislação sobre a propaganda de alimentos, especialmente às voltadas ao público infantil, tem que ser revista e se tornar mais rigorosa. “Para a criança não vale o mesmo que para o adulto. A legislação tem de ser diferente e mais rígida”, destaca a diretora.
Exposição
A educadura lembra ainda que estudos recentes apontam que as crianças brasileiras passam em média seis horas diante da TV por dia. “Além de não praticarem atividades físicas, ficam por horas expostas à publicidade de guloseimas. Fica difícil evitar que a criança queira esses alimentos inadequados”, completa. (DM/AAN)
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